Atualmente, as mulheres são privadas do acesso aos direitos fundamentais garantidos à maioria dos homens, como autonomia física e reprodutiva, liberdade e acesso à serviços financeiros. Como podemos esperar proporcionar às mulheres a equidade necessária para lhes dar igualdade, se elas na realidade nem sequer são tratadas da mesma forma? Sabe-se que as mulheres lutam pela liderança desde o século III a.C., mas, mesmo hoje, nossas estruturas de poder são dominadas por um número desproporcional de homens, silenciando as vozes de outros gêneros.
A Representatividade Feminina no Brasil
A representatividade feminina na Câmara dos Deputados do Brasil atingiu seu maior número na legislatura desde fevereiro de 2023. Das 513 cadeiras disponíveis, 91 passaram a ser ocupadas por mulheres, o que corresponde a aproximadamente 17,7% do total. Apesar desse avanço histórico, os homens ainda representam a maioria, com 422 deputados federais.
O aumento da bancada feminina marca uma evolução significativa. Porém, a presença do grupo no Parlamento ainda está distante da composição populacional do Brasil, onde as mulheres compõem cerca de 51,5% dos habitantes, segundo dados da própria instituição.
Tabela 1 – Porcentagem de mulheres representantes na Câmara dos deputados
Indicador | Valor |
---|---|
Total de cadeiras na Câmara | 513 |
Cadeiras ocupadas por mulheres | 91 |
Percentual de mulheres na Câmara | 17,7% |
Cadeiras ocupadas por homens | 422 |
Percentual de homens na Câmara | 82,3% |
Percentual de mulheres na população brasileira | 51,5% |
Aumento da bancada feminina (em relação à legislatura anterior) | 18% |
Ano da maior representatividade feminina | 2023 |
Conforme Michelle Bachelet – ex-presidenta do Chile e ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos: “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política.”
Desequilíbrio de Poder no Mercado de Trabalho
Esse padrão de desequilíbrio de poder também se espalha pela pirâmide empresarial. Em 2017, apenas 38% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres. Além disso, as mulheres ainda carecem de poder econômico: a disparidade salarial de gênero, embora esteja diminuindo, ainda é forte, especialmente para mulheres com filhos.
A Luta pela Valorização da Feminilidade e equidade
E como se isso não bastasse, as mulheres que alcançam o poder muitas vezes são levadas a sentir que seus objetivos e opiniões são menos importantes que os dos homens. Uma das poucas maneiras pelas quais as mulheres conseguiram conquistar poder foi adotando características tradicionalmente “masculinas”, como ocupar mais espaço físico, falar mais alto, engrossar a voz e serem ríspidas.
Isso se perpetua ainda mais na mídia que consumimos, sendo visto tanto no cinema quanto nas novelas. Por exemplo, Adjoa Andoh (que interpreta Lady Danbury em *Bridgerton*), ao falar sobre como usava símbolos de masculinidade para personificar o poder de sua personagem, afirmou que:
“Os homens daquele período usavam bengalas, chapéus, correntes de relógios. Sendo assim, Lady Danbury teve que optar por uma bengala, um chapéu e uma corrente de relógio.”
Isso não significa que as mulheres sejam vistas como poderosas por serem quem são, mas sim forçadas a se conformar à imagem preconcebida de poder dos outros.
Paradoxos da Liderança Feminina
Esse fator ocasiona um conflito prejudicial entre quatro “paradoxos” fundamentais, nos quais as mulheres devem incorporar simultaneamente qualidades opostas para serem percebidas como boas líderes. A Harvard Business Review constatou que as mulheres devem ser exigentes, porém atenciosas; autoritárias, mas participativas; autodefensoras, contudo prestativas; manter distância, porém parecer acessíveis. As estruturas patriarcais de poder da política e dos negócios esperam que seus líderes (independentemente do gênero) incorporem os “ideais masculinos” aos quais nos acostumamos.
No entanto, também precisamos incorporar alguns traços femininos mais estereotipados à liderança para realmente prosperarmos como sociedade. Podemos ver esse tipo de liderança feminista personificada em Jogos Vorazes, onde a liderança poderosa da personagem principal se baseia no uso de suas qualidades “masculinas” e “femininas”. Talvez, no futuro, esse estilo de liderança possa se disseminar também no mundo real.
Leia mais posts sobre feminismo na nossa seção sobre cultura. Esteja antenada sobre feminismo, equidade e desigualdade social.
Os Desafios das Líderes Femininas
Julia Gillard, ex-primeira-ministra da Austrália, disse:
“As pessoas concluem facilmente que uma líder feminina está agindo contra os estereótipos de empatia e cuidado, então rapidamente somos rotuladas de Cruella ou Lady Macbeth ou qualquer um desses tipos de comparações.”
Os homens têm uma vantagem inerente para conquistar poder profissional, pois não precisam enfrentar continuamente o conflito entre representar a masculinidade e a feminilidade. Eles são socializados para representar a masculinidade e reprimir sua feminilidade, o que por si só causa uma infinidade de problemas. Apesar de, nos últimos anos, ter havido uma pequena rejeição às expectativas de gênero da sociedade em relação aos homens, por meio de estéticas como a do “femboy” e a do “metrossexual”, a expectativa de masculinidade performática ainda prevalece em muitas esferas profissionais e privadas.
Superando as Expectativas de Gênero
Espera-se que as mulheres demonstrem feminilidade em todas as áreas da vida, exceto quando buscam conquistar poder profissional. É por isso que precisamos ir além do cumprimento de cotas de emprego se quisermos alcançar a igualdade de gênero. Precisamos de uma revolução social na forma como tratamos esses papéis como um todo, incluindo as qualidades de gênero. Exibir traços “femininos” (em qualquer gênero) frequentemente resulta em salários mais baixos: estamos perpetuando ativamente a suposição de que eles têm menos valor para a nossa sociedade do que os traços “masculinos”. O que não é uma vitória para o feminismo.
A Necessidade de Participação e Liderança Feminina
María Fernanda Espinosa Garcés, Presidente da Assembleia Geral da ONU, disse:
“Não há como alcançarmos nossa visão de um mundo mais seguro, justo e sustentável sem a plena participação e liderança de mulheres e meninas.”
O Caminho para a Igualdade
Já estamos começando a ver melhorias devido ao reconhecimento de pessoas com perspectiva de identidade sexual expansiva e à consequente reavaliação da compreensão tradicionalmente binária de papel sexual, mas precisamos de muito mais. Até que sejamos libertados das obrigações do papel de gênero performativo e todos, independentemente da sua expressão de identidade, possam usar todas as suas habilidades, até que a “feminilidade” seja considerada tão valiosa quanto a “masculinidade” (especialmente no que diz respeito a valor monetário e poder), jamais alcançaremos a igualdade entre os papéis sexuais.
