O Seu Cérebro Funciona de Forma Diferente: Multitarefas é um Mito
“Você não é capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo?”
Essa pergunta já foi dirigida a quase todos nós. No mundo atual, a multitarefa deixou de ser uma habilidade simples e se transformou em um culto à eficiência. Sentimo-nos orgulhosos por conseguir responder e-mails durante reuniões, preparar o jantar enquanto lavamos roupas ou ver notícias enquanto conversamos com amigos.
Mas existe um problema: nosso cérebro não é capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo.
E isso não é apenas uma sensação subjetiva — é um fato neurobiológico.
Por que a Multitarefa é uma Farsa do Cérebro
A multitarefa parece muito atraente: fazer mais em menos tempo e atender a tudo simultaneamente.
Porém, pesquisas em neurociência mostram o contrário. Quando achamos que estamos executando várias tarefas ao mesmo tempo, na verdade nosso cérebro está apenas alternando rapidamente entre elas, focando em uma de cada vez.
Essa alternância constante tem seu preço. O professor da Universidade de Stanford, Clifford Nass, passou anos estudando o fenômeno e concluiu que pessoas que realizam multitarefas com frequência ficam piores em cada uma delas.
Elas:
- Perdem a capacidade de filtrar informações irrelevantes;
- Se distraem com mais facilidade;
- Têm maior dificuldade de concentração.
Segundo a Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association), tentar realizar várias tarefas simultaneamente pode reduzir a produtividade em até 40%.
Experimentos da Universidade de Londres mostraram que alternar tarefas pode, temporariamente, reduzir o QI de 10 a 15 pontos — um impacto comparável ao de uma noite sem dormir ou de um leve estado de embriaguez (Fonte APA).
O Que Acontece no Cérebro Durante a Troca de Tarefas
Ao alternar entre tarefas, ocorre um processo complexo de reconfiguração das conexões neurais.
É como trocar as marchas de um carro: é preciso acionar a embreagem, mudar a marcha e retomar o movimento. Esse processo, mesmo que dure frações de segundo, requer tempo e energia.
Estudos com ressonância magnética funcional (fMRI) mostram que, durante essa alternância, é ativado o córtex pré-frontal — a área responsável pelas chamadas “funções executivas”: planejamento, tomada de decisões e controle de impulsos.
Quando você troca de tarefa, essa parte do cérebro sofre uma sobrecarga de trabalho e se desgasta mais rapidamente, levando à chamada fadiga mental.
Nosso cérebro também consome energia não só para executar a tarefa atual, mas também para suprimir distrações.
Por exemplo: ao tentar escrever um relatório enquanto escuta conversas de colegas, parte dos seus recursos mentais é usada para ignorar a conversa. Quanto mais distrações, mais energia é usada para retornar à tarefa principal.
Por Que Acreditamos que Conseguimos Fazer Várias Coisas ao Mesmo Tempo
Apesar das evidências científicas, muitas pessoas continuam acreditando que são boas em multitarefa. Os psicólogos chamam isso de “a ilusão da multitarefa” — superestimamos nossa capacidade e subestimamos as perdas causadas pela alternância constante.
Algumas razões explicam essa ilusão:
- Recompensa imediata: cada vez que verificamos uma mensagem durante o trabalho, recebemos uma pequena dose de dopamina, o hormônio do prazer — o que cria uma falsa sensação de produtividade.
- Aprovação social: estar ocupado e realizar múltiplas tarefas virou um símbolo de status na cultura moderna. Dizer “estou tão ocupado” soa como “sou tão importante”.
- Autoengano sobre eficiência: percebemos o tempo dedicado a cada tarefa, mas não vemos o que perdemos ao mudar entre elas.
- Hábito de estímulo constante: nosso cérebro se acostuma com o fluxo ininterrupto de informações e passa a buscar estímulos, mesmo quando não há necessidade.
Um dado interessante: um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology revelou que pessoas que se consideram excelentes multitarefeiras têm desempenho inferior em testes de alternância de atenção em comparação com aquelas que reconhecem suas limitações (Fonte Journal of Experimental Psychology).
As Exceções: Quando a Multitarefa é Possível
Existem situações em que fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo é viável — mas com uma condição: uma das tarefas precisa ser completamente automatizada, ou seja, não deve exigir atenção consciente. Exemplos comuns:
- Ouvir um audiolivro durante uma caminhada leve;
- Falar ao telefone enquanto realiza tarefas domésticas simples;
- Escutar um podcast enquanto lava a louça.
Nesses casos, o cérebro está realmente engajado em apenas uma tarefa que demanda atenção ativa. A outra está sendo feita no modo automático.
Isso não é multitarefa no sentido verdadeiro, mas sim atividade de fundo.
No entanto, até mesmo aqui há nuances. Se algo inesperado acontece durante a atividade automática (como um obstáculo no caminho durante a caminhada), o foco muda automaticamente. Resultado: você pode perder o fio da conversa ou deixar de acompanhar o audiolivro.
As Consequências da Multitarefa Crônica
A alternância frequente entre tarefas não afeta apenas a produtividade imediata — pode trazer efeitos negativos de longo prazo:
- Prejuízo à memória: informações adquiridas em modo multitarefa são menos fixadas na memória de longo prazo.
- Queda na criatividade: ideias profundas e originais exigem imersão total no problema, o que é inviável com interrupções constantes.
- Problemas de inteligência emocional: multitarefeiros crônicos demonstram menos empatia e têm dificuldade para reconhecer emoções alheias.
- Aumento da ansiedade: o estado permanente de troca de foco mantém o cérebro em um nível constante de estresse leve, o que pode levar a quadros de ansiedade.
- “Demência digital”: termo usado por alguns neurocientistas para descrever a perda de capacidades cognitivas provocada pelo uso excessivo de dispositivos digitais e a fragmentação da atenção (Fonte Neuroscientific America).
O mais preocupante é que o hábito da multitarefa pode se fixar neurologicamente. Pesquisadores identificaram que, em multitarefeiros crônicos, a estrutura do cérebro se modifica: há uma redução da densidade da substância cinzenta nas áreas responsáveis pelo controle da atenção e regulação emocional (Fonte de pesquisa sobre neuroplasticidade).
Como Recuperar o Foco e a Atenção: Estratégias Práticas
1. Técnica Pomodoro
Divida o trabalho em blocos de tempo dedicados a um único objetivo. O método clássico propõe períodos de 25 minutos de trabalho focado, com pausas de 5 minutos.
Como aplicar:
Escolha uma tarefa, desligue notificações, configure um cronômetro para 25 minutos e concentre-se totalmente. Após esse tempo, faça uma breve pausa e repita o ciclo.
2. Prática do “Trabalho Profundo” (Deep Work)
Popularizada pelo professor Cal Newport, essa abordagem propõe reservar blocos de 2 a 4 horas para concentração intensa e sem distrações.
Como aplicar:
Agende períodos específicos para foco total, como se fossem compromissos importantes. Desligue celular, feche o e-mail e informe colegas que você não deve ser interrompido.
3. Elimine Distrações do Ambiente
O espaço físico influencia tanto quanto os estímulos digitais.
Como aplicar:
Crie um ambiente livre de distrações. Deixe o celular fora do alcance, use aplicativos que bloqueiam redes sociais e escute ruído branco com fones de ouvido.
4. Use a Tecnologia de Forma Consciente
A tecnologia não é o inimigo — o problema é como a utilizamos.
Como aplicar:
Desative notificações. Estabeleça horários fixos para checar e-mails e mensagens. Quando possível, use dispositivos diferentes para trabalho e lazer.
5. Meditação Mindfulness
A meditação fortalece a atenção e reduz distrações.
Como aplicar:
Comece com 5 a 10 minutos diários. Sente-se confortavelmente, foque na respiração e, quando a mente vagar, traga o foco de volta gentilmente. Essa prática fortalece seu “músculo da atenção”.
6. Detox Digital
Pausas periódicas da tecnologia ajudam o cérebro a descansar.
Como aplicar:
Comece com uma noite por semana sem telas. Aos poucos, aumente para um dia por mês longe de dispositivos digitais.
Como Explicar aos Outros que Você Não Faz Mais Multitarefas
Abandonar a multitarefa pode causar estranhamento, pois as pessoas ao seu redor estão acostumadas com sua disponibilidade constante. Veja como comunicar essa mudança:
- Use a linguagem da eficiência:
Evite dizer “não faço mais multitarefas”. Diga:
“Estou otimizando minha produtividade para entregar resultados melhores.” - Mostre os benefícios para os outros:
“Quando eu estiver totalmente focado no projeto, conseguirei finalizá-lo mais rápido e com melhor qualidade.” - Estabeleça horários claros:
“Vou checar e-mails três vezes ao dia: às 9h, 13h e 17h.” - Crie exceções para urgências:
“Se for algo urgente, pode me ligar diretamente.”
Você pode se surpreender ao ver que muitos apoiarão sua iniciativa — afinal, eles também sentem os efeitos negativos da multitarefa.
A Nova Produtividade: A Monotarefa como Vantagem
Em um mundo obcecado por multitarefas, a habilidade de se concentrar profundamente em uma única atividade torna-se cada vez mais rara e valiosa. Com a automação e a inteligência artificial assumindo tarefas repetitivas, sobra para os humanos aquilo que é mais difícil: as tarefas criativas, analíticas e estratégicas — e essas exigem atenção total.
Voltar à monotarefa não é retrocesso. É um salto evolutivo rumo a um uso mais eficiente e saudável de nossos recursos cognitivos.
É como trocar um carro que consome muito e vive quebrando por um modelo econômico, confiável e ergonômico.
Lembre-se: nosso cérebro foi feito para o foco, não para a fragmentação.
Quando trabalhamos de acordo com esse projeto natural, alcançamos não só mais produtividade — mas também mais satisfação.
Talvez a verdadeira eficácia não esteja em colocar cada vez mais tarefas em cada minuto… mas em dar mais sentido e profundidade a cada minuto vivido.